O discurso raso ganha força na véspera das eleições, mas haverá resistências. Foto: Ozéas Santos (AID/ALEPA) – Edição: Ponto de Pauta

Por Aldenor Júnior

A Assembleia Legislativa do Pará transformada em arena de violência violência institucional, mais uma vez.

Desta feita, o pastor-deputado Martinho Carmona (MDB) propôs e aprovou um projeto de lei que espelha até onde o fundamentalismo é capaz de ir quando se trata de angariar votos e espalhar fakenews contra os segmentos mais vulneráveis da sociedade.

O PL 376/2024 autoriza instituições religiosas, escolas confessionais e entidades ligadas a organizações religiosas a restringirem o uso de banheiros por pessoas trans e travestis.

Em que ano mesmo estamos?

Certamente, não estamos antes de 1891, quando a nascente República consagrou, pela primeira vez em uma Carta Constitucional, o princípio basilar da separação entre Igreja e Estado.

No plenário, dominado pela covardia e cumplicidade da grande maioria, apenas um voto contra essa indignidade, o da deputada Livia Duarte, do PSOL.

Há anos essa semeadura do preconceito contamina o tecido social, espalha infelicidades, maltrata e fere fundo a alma de tanta gente.

E tudo para lucrar, levando vantagem diante da ignorância que viceja, lastro que puxa para baixo, rumo ao abismo da truculência que vem de tão longe.

Há no meio disso um cálculo político-eleitoral. Preconceito e violência dão voto, sedimentam currais, fidelizam consciências sequestradas.

Mentiras envelopadas em cinismo

Banheiros vetados à pessoas trans e travestis não passa de estigmatização de quem já recebe sobre as costas toda sorte de violências. Qual o fundamento essa tese absurda, que não encontra amparo em nada que se assemelhe à ciência? Simples, nenhum, absolutamente nenhum. Tudo está baseado em mentira, no fruto envenenado da mais pura invencionice que, no limite, tenta desviar a atenção dos verdadeiros agentes da violência sexual contra meninas e meninos por esse país afora.

Os agressores – predadores, estupradores contumazes – não são seres extraterrestres, estranhos que promovem ataques gratuitos e aleatórios. Os dados oficiais não deixam margem a dúvida: segundo o Atlas da Violência, produzido pelo IPEA e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, cerca de 70% a 80% dos casos de violência sexual são cometidos por parentes, namorados, cônjuges ou amigos/conhecidos.

E onde entra os banheiros nessa narrativa? Por que banheiros públicos são eleitos como o terreno propício à prática de agressões sexuais, na narrativa enviesada do fundamentalismo?

Porque explora o medo, dissemina o pavor, trabalha o receio diante do desconhecido, revirando receios que sempre estiveram dormentes apenas esperando uma ativação.

Pontes contra muros

Porém, se há cada vez mais quem construa muros de ignorância, há pontes sendo erguidas em meio ao tiroteiro.

Se há um pastor-deputado exalando o terrível odor da baixíssima política, há, germinando, uma nova geração que não tem medo de mostrar sua face libertária.

A iniciativa das pré-candidaturas da Bancada Transformar, do PSOL, é um desses exemplos. Que o pastor-deputado vá explicar na Justiça quais as reais intenções com seu projeto que pretende criminalizar as pessoas transgênero. E que, comprovada sua evidente má fé, pague por sua postura discriminatória e transfóbica.

A humanidade não caminha para a barbárie, disso todo mundo pode ter certeza. Basta não normalizar o absurdo e nem fugir ao combate que tem a ver com o próprio sentido do que venha a ser uma democracia substantiva.

Aldenor Júnior é jornalista.

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