Natália do BBB romantiza a escravidão e afirma que negros estavam destinados

Afirmação de sister é típica amenização do sofrimento através da distorção da realidade- Freud explica

Por Ju Abe

A participante Natália é uma figura emblemática no BBB. É negra e tem vitiligo, só nesses dois quesitos, já poderíamos supor que tem um histórico de sofrimento. Porém, é visível que os aprendizados de sua vida não vieram somente através do sofrimento, existe alguma espécie de ideologia “político-religio-meritocrática” por trás. Ou melhor: a sister fora capturada em cheio pelos grupos que espalham essas ideologias, justamente por conta de sua vulnerabilidade.

A modelo, que faz parte da ala “pipoca” da casa (os que entraram através das inscrições) afirmou ontem na noite de estreia da edição de 2022 que negros teriam se tornado escravos por “sorte” do destino ou por uma suposta escolha meritocrática: “viemos como escravos sim. Por quê? Porque a gente era eficiente (…). Por que que a gente veio como escravo? Porque a gente era bom no que fazia”, disparou, na mesa da cozinha.

Segundo especulações de internautas, a esteticista de unhas faz parte do time “bolsominico” da casa. Natália teria votado em Bolsonaro em 2018, apesar de já ter-se mostrado arrependida em suas redes sociais. Arrependida do voto sim, porém não da ideologia.

Internautas especulam se ela não seria uma espécie de discípula de Sérgio Camargo, o atual presidente da fundação Palmares, escolhido a dedo por Bolsonaro. Camargo uma vez também afirmou que a escravidão foi “boa”, entre outra pérolas, como ter chamado o dia da Consciência Negra de “dia da vitimização do negro”, negando uma data que fora concebida em homenagem ao legado de uma das maiores lideranças da resistência negra de todos os tempos- Zumbi dos Palmares .

A formação verbal “viemos”comprova- Natália acredita que já havia algo planejado pelo destino, antes dos espíritos habitarem os corpos escravizados. Aqui percebe-se que o problema é a velha História mal contada- ou contada apenas pela visão dos “vencedores”.  Antes de chegarem ao Brasil, cara sister, os negros viviam como chefes, e até mesmo como príncipes ou princesas, em seu continente de origem, a então abundante África.

Trabalhavam sim, mas para servir bem seus próprios descendentes, e não a senhorios estranhos que lhe dariam em troca apenas chicotadas e restos de comida. Mas, claro, os brancos foram muito eficientes em apagar e esconder tudo isso, e ainda nos choca o fato de que grande parte da população negra não conheça os históricos de seus antepassados . Na segunda parte da assertiva, a esteticista de unhas vai ainda mais fundo: pessoas negras teriam sido escravizadas por sua “eficiência”. Não, Natália, elas foram escravizadas porque o sistema era escravista.

É compreensível que pessoas que sofrem numa sociedade racista tenham as suas mágoas transformadas em “méritos”- pois de alguma maneira, a amenização do sofrimento através da distorção da realidade faz parte da caminhada evolutiva humana- Freud explica.

O que não é natural é que indivíduos permaneçam estacionados e acreditem que já alcançaram o conhecimento pleno, sem buscar aprofundar as ideias que propagam- é isso que a ideologia faz. Pior ainda é quando tais ideologias conseguem manipular tantas pessoas, e abocanhar o poder, como aconteceu aqui no Brasil.

A escravidão tem registro, tem fatos que a ilustram, tem denominação científica- escravização de pessoas negras. Foram atos realizados por uma casta ambiciosa, privilegiada e armada, que o fez justamente por estas razões, e não por outras. Por mais difícil que seja aceitar isso, há também seu lado bom.

Aceitar que a nossa sociedade foi erigida sob a égide da mais cruel faceta humana, é o que pode dar força e vontade para unir, lutar, criar e por fim destruir de uma vez por todas o que aqui nesse plano só permanece porque estas ideologias insistem em perpetuar.

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