Espaço símbolo da Belle Époque paraense pode ser descaracterizado sob pretexto de “revitalização”. Foto: Fernando Sette / Agência Belém
A jornalista Franssinete Florenzano trouxe à tona, nesta terça-feira (21), um caso que sintetiza o descaso da gestão do prefeito Igor Normando (MDB) com o patrimônio histórico e cultural de Belém. A imagem do diretor de Ação Cultural da Secretaria Municipal de Cultura e Turismo, Anderson Reis, utilizando o Casa Museu Francisco Bolonha para realizar uma tatuagem em horário de trabalho é, por si só, chocante e demonstra uma profunda falta de respeito. No entanto, o verdadeiro escândalo pode estar por vir: a proposta da gestão de transformar o Palacete Bolonha, uma joia arquitetônica de 1905, em um café, como informa a jornalista.
Esta proposta não é apenas questionável, é uma demonstração de pequenez política e de um desconhecimento abissal sobre o valor da história. Reduzir um palacete centenário, testemunha da Belém do início do século XX, a uma simples cafeteria é esvaziar seu significado e negar sua vocação como espaço de memória e educação. É tratar um bem público e histórico como se fosse um imóvel qualquer, passível de ser convertido em um empreendimento comercial.
A indignação que surge entre todos que amam Belém é mais do que justa. O Palacete Bolonha, com sua imponência e história, merece uma função à altura de sua importância: um centro cultural vibrante, um museu ampliado, um espaço para oficinas e exposições que dialoguem com a identidade paraense. Coisas que até pouco tempo atrás – em 2024 – acontecia.
Mais grave ainda é o risco que a proposta impõe ao edifício. A instalação de um café colocaria em perigo irreversível o conjunto arquitetônico: o tráfego intenso de pessoas, o preparo e a manipulação de alimentos, a umidade, os odores e o desgaste natural da operação comercial ameaçam pisos, paredes, vitrais e a própria acústica do museu, elementos insubstituíveis.
O ato indisciplinado do diretor Anderson Reis dentro do museu é, portanto, um sintoma de um problema maior. Uma gestão que mistura o público com o privado e demonstra desprezo pelo patrimônio histórico: dez meses depois, o Museu não tem diretor, o corpo técnico foi desmontado, o laboratório de restauro foi fechado, e dele retiraram os instrumentos e equipamentos, inclusive uma pia que servia para limpeza das peças do acervo foi arrancada, escreve ainda Franssinete.








