Escola Shajareh Tayyebeh, em Minab, no sul do Irã – Via Fotos Públicas
Um ataque brutal contra uma escola infantil produz 175 mortes, a grande maioria formada por crianças de até 12 anos. Por trás da barbárie, uma empresa de alta tecnologia: Palantir Technologies, que está reescrevendo o uso de IA para fins bélicos
Por Aldenor Junior
Não havia como saber, é claro, se em qualquer dado momento você estava sendo observado; do mesmo modo, era um mistério saber quantas vezes e com que método a Polícia do Pensamento acessava qualquer conexão individual. Era até mesmo concebível que observassem todas as pessoas o tempo inteiro.
George Orwell
Sábado, 28 de fevereiro. Zahra Behroozi, 8 anos, imaginou ter um dia normal na escola feminina Shajareh Tayyebeh, em Minab, no sul do Irã. Mas, naquela manhã, sua sentença de morte já fora assinada e ela seria despedaçada pela explosão causada por um míssil Tomahawk, de US$ 2,5 milhões de dólares. Ela e outras 174 pessoas, a grande maioria crianças entre 6 e 12 anos. Era o início da mais recente guerra de agressão dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã, o Libano e, como sempre, contra os palestinos, cujo genocídio em Gaza e nos demais territórios ocupados segue agora longe dos holofotes e do interesse da imprensa internacional.
O que a pequena Zahra não sabia era que seu destino foi selado por uma máquina, um poderoso sistema computacional que definiu os alvos, com as devidas coordenadas e até o número de vítimas civis – os chamados “danos colaterais” – que a operação militar iria produzir. Essa máquina que roda um sofisticado programa de Inteligência Artificial (IA) foi batizada como sistema Marven (“Marven Smart System”) e foi concebida pelos engenheiros da Palantir Technologies, uma das mais importantes big techs do Vale do Silício, nos Estados Unidos.
Não foi por outro motivo que o Irã classificou a Palantir como “alvo legítimo”, pois essa empresa cruzou a tênue fronteira de fornecedora de insumos para o Pentágono para se tornar parte integrante e essencial do esforço de guerra estadunidense.
Mas quem é a Palantir, que até há pouco ninguém notava os movimentos?
Criada por executivos declaradamente de extrema-direita e com vínculos públicos com o regime sionista de Israel, a Palantir resolveu mostrar sua cara. Após os ataques de 7 de outubro de 2023, manifestou apoio aberto a Israel. E, há pouco, revelou para o mundo que seu sistema Marven é capaz de unificar mais de 8 fontes de dados distintos (satélites, drones, espiões, informações abertas nas redes, entre outras) para definir e classificar os alvos a serem eliminados. Toda essa sofisticação, porém, não impediu que um desses alvos fosse uma escola infantil e não o quartel da Guarda Revolucionária que estava nas redondezas. Falha da máquina, custo humano atroz.
A álgebra da morte
A escola Shajareh Tayyebeh sofreu dois ataques, separados por poucos minutos. É a técnica chamada de “double-tap” e costuma ampliar os danos e as vítimas. Não raro, após a primeira onda, equipes de socorristas, familiares e mesmo jornalistas se deslocam para o lugar do ataque e acabam sendo vítimas da segunda explosão. Se isso não for crime de guerra é bom queimar em praça pública todas as Convenções de Genebra?
Essa modalidade não surgiu por acaso. A guerra genocida em Gaza serviu de laboratório. Afinal, em anos de ataques quase diários, Israel produziu, segundo dados da ONU, mais de 72 mil mortes, mais da metade – 38 mil – era formada de mulheres e crianças. Lá, também, os mísseis seguiam as coordenadas das máquinas mortíferas da Palantir.
O CEO da Palantir, Alex Karp, resolveu lançar um livro resumindo a visão de mundo da empresa. O resultado é o mais puro caldo do chamado tecnofascismo.
A tese central do manifesto é simples e aterradora: sai de cena a dissuasão nuclear para que pontifique soberano o uso e abuso da IA para fins militares. Para a Palantir, “a questão não é se as armas de IA serão construídas, mas quem as construirá”.
São 22 teses, escritas por cidadãos que abdicaram de quaisquer princípios morais. Defendem, entre outras atrocidades, a reversão do desarmamento de Alemanha e Japão (ecos tardios do nazismo) e a suposta supremacia cultural do Ocidente frente a outras culturas, tidas como “disfuncionais e regressivas”.
Mas, pare por um momento e reflita: é o chamado Ocidente (cristão e avançado) que está despedaçando crianças na Palestina e no Irã. Em nome de quem? Do Deus mercado e da idolatria da técnica que se presta a espalhar a morte e o domínio da plutocracia. Numa palavra, Tecnofeudalismo, como cunhou o economista e ex-ministro das Finanças da Grécia, Yanis Varoufakis.
E o Brasil com isso?
A Palantir há anos penetrou em nosso território. Estamos literalmente dormindo com o inimigo. Segundo dados da imprensa, existem inúmeros clientes públicos e privados que contrataram ferramentas da Palantir. Entre os do setor público, o Fundo Nacional de Educação (FNDE), vinculado ao Ministério da Educação, possui contrato destinado à gestão e análise de dados do Programa Nacional de Apoio ao Transporte Escolar. Mas existem muitas outras áreas – saúde, seguros, finanças e comunicação. Talvez não por mera coincidência, o Grupo Globo aparece como um dos principais clientes brasileiros da big tech envolvida até o pescoço com a política belicista de Donald Trump.
A soberania tecnológica não é algo acessório, como se pudesse ser objeto de simples conveniência. Ou o Brasil desperta para esse enorme risco geopolítico, ou o futuro soberano e inclusivo estará definitivamente comprometido.
Aldenor Junior é jornalista








