Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

“A tragédia final não é a opressão e a crueldade das pessoas más, mas o silêncio sobre isso das pessoas boas”. Martin Luther King

Por Paulinho Rodrigues

As pesquisas mais recentes sobre as operações policiais no Complexo do Alemão e na Penha mostram um dado preocupante: boa parte dos cariocas e fluminenses aprova as ações que resultaram em dezenas de mortes. A violência virou política pública — e o silêncio de quem deveria se opor a isso grita mais alto do que as balas.

De acordo com o Datafolha, 57% dos moradores da Região Metropolitana do Rio consideraram a operação um sucesso. A Quaest foi além: 64% dos fluminenses disseram aprovar o que chamam de “combate ao crime”. Apesar das metodologias diferentes, as duas pesquisas apontam na mesma direção — a maioria da população apoia a brutalidade policial.

Mas há nuances. A Quaest mostra que metade dos entrevistados acredita que a PM deveria tentar prender alguém com fuzil antes de atirar, enquanto 45% defendem o “atirar primeiro”. Já 52% afirmam que o estado ficou mais inseguro depois da chacina — contra 35% que pensam o contrário.

Essas opiniões foram colhidas logo após o massacre, sob forte impacto emocional. É natural que as pessoas respondam movidas pela raiva e pelo medo. Daqui a alguns meses, se o cenário for reavaliado, os resultados podem mudar. Ainda assim, o quadro revela contradições profundas e levanta duas perguntas centrais.

1. O silêncio do “outro lado”

Diante da escalada de violência e da postura autoritária do governador Cláudio Castro, a ausência de uma resposta firme do governo federal e dos setores progressistas chama atenção.

O massacre não foi uma simples “operação policial” — foi um ato político, uma demonstração de força de uma extrema-direita que aprendeu a transformar o medo em capital eleitoral.

E o que fez o governo Lula?

Ficou em silêncio. Logo após a chacina, o presidente sancionou uma lei de endurecimento penal proposta por ninguém menos que Sergio Moro — e ainda fez propaganda da chamada PEC da Segurança Pública, uma iniciativa igualmente punitivista.
O ministro da Justiça, ao viajar para o Rio, acabou reforçando a narrativa do governador, somando-se ao coro da “tolerância zero”.

As notas oficiais foram tímidas, burocráticas, irrelevantes.

Por cálculo político e marketing, o Planalto decidiu não disputar a narrativa pública, deixando o campo livre para a extrema-direita.

E não parou aí: lideranças do próprio PT e aliados, como Rui Costa, Jerônimo Rodrigues, Elmano de Freitas e Quaqua, têm se posicionado de forma parecida com a direita tradicional.

Ou seja, o campo progressista, que deveria denunciar o autoritarismo e defender outra visão de segurança, parece paralisado.

2. O problema é estrutural

Por trás do silêncio está algo mais profundo: a continuidade de um modelo econômico neoliberal que já dura mais de três décadas, desde o governo FHC.

Mesmo com discursos diferentes, a prática é a mesma — cortes de gastos, juros nas alturas, privatizações disfarçadas, sucateamento de serviços públicos e precarização do trabalho.

O resultado é um país mais pobre, mais desigual e mais violento.

O Arcabouço Fiscal, apresentado como solução técnica, funciona na prática como uma tesoura que corta investimentos em educação, saúde e ciência — as áreas que poderiam transformar a realidade das periferias.

Quando o Estado se ausenta, o medo toma conta.

E um povo assustado, sem perspectivas e sem proteção acaba aceitando a violência policial como sinônimo de justiça.

É o terreno perfeito para o avanço do autoritarismo.

3. A extrema-direita impõe sua agenda

A extrema-direita conseguiu ditar o tom do debate nacional.

Enquanto o governo e a esquerda progressista e institucional permanecem na defensiva, o discurso da bala e do ódio ocupa o espaço público.

Com as eleições de 2026 se aproximando, não há tempo a perder.
Não dá para jogar parado, esperando que a vitória venha sozinha.

A ESQUERDA precisa não ter medo de ser ESQUERDA e voltar a disputar corações e mentes — com coragem, com projeto e com verdade.

Nosso problema não é de POLÍCIA. É de POLÍTICA

*Paulinho Rodrigues é ativista dos direitos humanos, coordenador do Movimento Cabano em Apoio as Lutas pela Autodeterminação dos Povos – MOCAP

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