Relator do PL, Guilherme Derrite (PP-SP) Foto: Lula Marques/Agência Brasil

Por Aldenor Junior – Peço licença ao genial paraense Palmério Dória ((1949-2023) para roubar e adaptar seu impagável título (Honoráveis bandidos – Um retrato do Brasil na era Sarney. Geração Editorial, 2012). Os bandoleiros que se apossaram do Congresso Nacional são uma versão turbinada (e muito mais perigosa e letal) que seus antepassados recentes e pretéritos.

Afinal de contas, os chefes partidários da direita na Nova República se assemelham a lordes diante da truculência lombrosiana que caracteriza os cabeças do Centrão, em sua aliança carnal com a tropa de choque bolsonarista.

É desse buraco que surgiu uma figura como Guilherme Derrite (PP-SP), um capitão da PM paulista que de tão delinquente conseguiu ser expulso da ROTA por “excesso de letalidade”. Trata-se, portanto, de um “serial killer” que por anos envergou a farda e se vangloriava das incontáveis mortes que carrega nas costas. Pois bem, foi esse sujeito que foi indicado por Hugo Motta (Republicanos-PB) como relator do projeto do governo Lula que pretende apertar as regras de combate ao crime organizado. Um escárnio político e mais um gesto despudorado para a coleção desse que já é um monumento à desfaçatez política.

Só quem é muito ingênuo para se espantar. o presidente da Câmara é uma espécie de boneco de ventríloquo – a voz que ele reproduz num português claudicante vem direto do cérebro do Artur Lira e de Ciro Nogueira, os que manejam os cordéis.

Dos mesmos autores do PL da Bandidagem, eis que Derrite apresentou um substitutivo ao projeto do Planalto para blindar as facções, impedindo a participação da PF e do MPF nas investigações contra o crime organizado. Na cara dura, com um destemor de fazer inveja, o miliciano-deputado expôs as vísceras de um sistema que vive apenas para se auto proteger contra a lei, como se fosse uma casta imune ao controle estatal.

Como se sabe, esse é o sonho de verão de todas as máfias do mundo, não por acaso, que se descrevem como honoráveis homens, na invertida ética do banditismo.

Diante da reação do governo e dos partidos de esquerda, rapidamente o relatório sofreu ajustes, retirando, pelo menos por enquanto, suas partes mais obscenas. Agora, Derrite considera a participação da PF, desde que “em caráter cooperativo com a polícia estadual respectiva, sempre que os fatos investigados envolverem matérias de sua competência constitucional ou legal”. Mais óbvio, impossível. Isto é o que manda a Constituição e ponto final.

A batalha, porém, está em pleno curso. A versão mais hard do relatório Derrite pode voltar no plenário, ninguém duvide. Basta que a sociedade se desmobilize e que o governo se envolva nas muitas armadilhas do serpentário de próceres da direita que coabitam os corredores do poder em Brasília.

Para completar o cardápio de bizarrices, Derrite flerta com a caracterização das facções criminosas como narcoterroristas. Assim, abrem-se as portas para toda uma gama de possibilidades de intervenção estadunidense, além de impor de imediato prejuízos bilionários à economia nacional. Tudo isso, sob inspiração de Tarcísio de Freitas, governador do estado mais industrializado do país e principal alvo dessas retaliações econômicas. A burguesia paulista é um caso a ser estudado.

Definitivamente, o Brasil não é para amadorres.

Aldenor Junior é jornalista.

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