Multidões desfilam pelo mundo trajando a tradicional Kefia, símbolo nacional da Palestina. De suas tramas ancestrais, forjadas em carne, sangue e memórias, emana um grito tenebrosamente humano: esquecer esse povo e seu genocídio diário significa romper para sempre a fronteira do que nos faz humanos. Foto: Unicef/Mohammed Nateel

Por Aldenor Junior

Quem apaga a guerra dentro de mim
e me empresta um pouco de esquecimento?
Quem redefine minha noite
e a dos rebeldes mais eminentes embaixo dos destroços?
Muna Almassdar

1946. Explosivos plantados por uma organização sionista no subsolo do Hotel Rei Davi, em Jerusalém, causam uma detonação fatal: 91 mortos – a maioria formada por militares da Grã-Bretanha, mas também por muitos árabes e civis judeus que trabalhavam nos escritórios da Autoridade Britânica – e mais de 200 feridos. Esse ato sangrento é a verdadeira certidão de nascimento do Estado de Israel.

Anos mais tarde, Menachem Begin, o líder dessa célula terrorista denominada Irgun, seria primeiro-ministro de Israel e coube a ele manter e aprofundar a situação de guerra permanente contra os árabes palestinos, deslocados de suas terras a partir de 1948 e transformados em prisioneiros perpétuos daquilo que o historiador israelense, Ilan Pappe, chama de “a maior prisão do mundo”, referindo-se aos territórios ocupados, em Gaza e na Cisjordânia.

1974. Da tribuna das Nações Unidas, em Nova York, Iasser Arafat, dirigente da então poderosa Organização para Libertação da Palestina (OLP), faz seu discurso histórico: “Hoje, eu venho portando um galho de oliva e uma arma dos lutadores pela liberdade. Não permitam que o galho de oliva caia de minha mão!”.
Claramente, nesses mais de 50 anos, o mundo deixou que o ramo de oliveira caísse numa terra adubada pelo sangue dos mártires e de vítimas inocentes.

2026. Thiago Ávila, cidadão brasileiro, pacifista, navegando em águas internacionais, é sequestrado por tropas de elite de Israel, em uma ação que pisoteou o direito internacional, isso que hoje não passa de uma piada de péssimo gosto em tempos de Trump e Netanyahu, esses carniceiros que agem como se fossem donos do mundo.

A Flotilha Global Sumud, movimento internacional de solidariedade à Palestina, tenta desde 2005, romper o cerco à Gaza e levar ajuda humanitária. São centenas de ativistas e incontáveis embarcações que se lançam ao mar em uma missão tão perigosa quanto necessária. A prisão do ativista brasileiro e de mais de uma centena de civis foi apenas um outro capítulo da agressão permanente que o regime sionista executa, agora com mais liberdade e ousadia.

Thiago e o espanhol palestino Saif Abukeshek foram separados dos demais e imediatamente espancados impiedosamente. Levados a Israel, seguiram sofrendo humilhações, torturas e maus tratos, sem que nenhuma acusação formal tenha sido formulada. Nada de incomum. Este é o regime cruel e desumano que é dispensado aos palestinos. Foram 11 dias de atrocidades, enquanto nos quatro cantos do mundo crescia o repúdio a Israel e a exigência pela imediata libertação dos presos, o que só veio a ocorrer neste domingo, 10.

Balfour deu o que não lhe pertencia

Os palestinos são um povo ultrajado. Protagonizam um holocausto que parece não ter fim. São chamados de terroristas quando exercem o direito à rebelião, outra cláusula que está inscrita com todas as letras no direito internacional. Entretanto, na origem do conflito, desde sempre, há as digitais das potências imperialistas. Foi a Grã-Bretanha que, ainda no início do século 20, armou a bomba, que seria detonada algumas décadas mais tarde.

1917. A peça fundante dessa espoliação entrou para a história como a Declaração assinada por Arthur James Balfour, secretário britânico dos Assuntos Estrangeiros. Como foi possível dar a terceiros o que não lhes pertencia? Foi exatamente isso que os britânicos fizeram, numa celebração infame do colonialismo de assentamento que está na gênese do estado sionista de Israel:

“Caro Lord Rothschild,
Tenho o grande prazer de endereçar a você, em nome do governo de Sua Majestade, a seguinte declaração de simpatia quanto às aspirações sionistas, declaração submetida ao gabinete e por ele aprovada:

‘O governo de Sua Majestade encara favoravelmente o estabelecimento, na Palestina, de um Lar Nacional para o Povo Judeu, e empregará todos os seus esforços no sentido de facilitar a realização desse objetivo, entendendo-se claramente que nada será feito que possa atentar contra os direitos civis e religiosos das coletividades não judaicas existentes na Palestina, nem contra os direitos e o estatuto político de que gozam os judeus em qualquer outro país.”

O detalhe perverso: a Palestina não era uma terra sem povo. Lá, desde tempos imemoriais, vivia um povo originário, com história, tradição e cultura árabe-palestinas, que jamais aceitaria ceder sem lutar seu território a populações estrangeiras, e que por mais houvesse uma pequena população judia na região – vivendo em harmonia com os locais e sem nunca ter sido majoritária – não teria motivo para aceitar que a conta do antissemitismo e da violenta perseguição que há séculos era realizada contra esse grupo fosse espetada em suas costas. Os palestinos almejavam simplesmente alcançar a independência e se auto-organizar longe de domínios coloniais, seja dos turcos, seja de potências europeias.

Por isso, sempre foi evidente que criar o lar nacional para os judeus na Palestina equivalia a acender o pavio de um morticínio interminável. E foi exatamente isso que foi feito.

Voltando a 2026, Thiago ofertou ao mundo um testemunho de grandeza. Sua coragem deve ser exemplo, inspiração nestes tempos turvos e de covardia amplamente disseminada.

Em carta escrita ainda no cárcere israelense, Thiago disse: “Estou na prisão, mas sou livre. (…) Como eu poderia temer a tortura se as coisas que vem fazendo comigo desde meu sequestro e prisão ilegal não são nada comparadas ao que fazem com os palestinos nas mesmas prisões?”.

De volta a seu país, Thiago receberá abraços da família e de uma multidão de ativistas que, como ele, ousam se levantar contra a barbárie sionista.

Que o mundo seja semeado pela coragem de Thiago e Saif. É dessa capacidade de celebrar a resistência ativa que os povos do mundo tanto precisam.

Aldenor Junior é jornalista.

Deixe um comentário