Por Aldenor Junior – A PF amanheceu hoje, 18, fazendo o que muito raramente acontece neste país: colocando grã-fino atrás das grades. E não é qualquer um que teve o dissabor de receber voz de prisão um pouco antes de embarcar para o exterior, provavelmente em fuga do país, em um jatinho particular. Trata-se de Daniel Vorcaro, o dono do encrencado Banco Master.
Agora, há de se esperar as consequências da operação Compliance Zero, tanto no mercado financeiro quanto no mundo político, porque os tentáculos de Vorcaro se estendiam por variadas conexões e poderão lançar luz sobre transações pouco republicanas de próceres do MDB e dos sempre enrolados políticos do Centrão.
Tudo aconteceu depois do Master tornar público que estava negociando sua venda para grupo Fictor por nada menos que R$ 3 bilhões, em consórcio com investidores dos Emirados Árabes, cuja presença no negócio gerou uma reação de expectativa e de descrença no mercado. Afinal, quem investiria tanto dinheiro numa instituição que há meses tenta se livrar da liquidação, pendurada em ativos podres?
Com algum atraso – porque até as calçadas da Faria Lima sabiam que o Master era um cadáver insepulto -, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do banco, medida que deveria ter sido realizada há bastante tempo, pelo menos desde que as operações fora do padrão de risco tornaram o Master uma fonte de preocupação de contaminação sistêmica.
No início do ano, para surpresa de absolutamente ninguém, o socorro ao Master veio de uma instituição bancária pública com fortíssimas influências da turma graúda do MDB. O Banco Regional de Brasília (BRB), sob a batuta do governador Ibaneis Rocha, anunciou que despejaria R$ 2 bilhões do povo do Distrito Federal para comprar “a parte saudável” do Master. Não deu outra: depois de muita pressão, a diretoria do BC vetou o negócio (ou seria a negociata?) e tudo voltou à estaca zero.
Na operação desta manhã, o presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, foi afastado de suas funções, o que sinaliza que a PF vê uma conexão entre a débâcle do Master e as armações que envolveram o banco público predileto da cúpula emedebista. A conferir até onde essas investigações irão chegar.
Fica, porém, a lição: o crime, o verdadeiro e altamente insidioso crime, não se abriga nos barracos das favelas e comunidades insalubres país afora. Se o objetivo é deter, de uma vez por todas, os muitos dutos que drenam boa parte da riqueza nacional, só há um jeito e para tanto é necessário pegar o elevador e apertar para descer nas luxuosas e muito suspeitas coberturas onde a elite usufrui o vil metal (com idêntica gana e volúpia de seus antepassados que aportaram por aqui nas caravelas de Cabral).
Aldenor Junior é jornalista.








