Texto escrito em 24 de fevereiro de 2022. (Foto: Foto: Gabinete do Presidente da Ucrânia via EBC)

Por Elias Araújo

Observações: quanto aos objetivos dos EUA:

– A Rússia nem se dividiu, nem foi abalada economicamente até o ponto de chegar a uma convulsão social. Ao contrário, conseguiu resistir às sanções, fortalecendo seus laços econômicos e políticos com a China e beneficiando-se da atual guerra do Eixo Epstein contra o Irã;
– ⁠A maioria dos países da União Europeia tornou-se dependentes do petróleo e gás estadunidenses, e suas economias encontram-se estagnadas;
– ⁠A OTAN está enfraquecida pela retirada de recursos dos EUA que obrigam os próprios países Europeus a custear a própria segurança, aumentado os recursos de defesa às custas de políticas sociais, para enriquecer o complexo industrial militar norte-americano camprando armas.
– ⁠Vladimir Vladimirovich encontra-se fortalecido internamente, ainda qye a russofobia alimentada pela máquina de propaganda da OTAN tenha se consolidado na Europa Ocidental.

A Ucrânia está sob ataque e pode ser derrotada. Mas, se há um vitorioso, não é Putin, cuja reputação encontra-se arruinada no Ocidente. Os Estados Unidos, mesmo antes de iniciadas as operações militares russas, já saiu como o grande vitorioso.

Entre as análises do conflito que li hoje, destaco a seguinte: “Temos agora uma aliança maligna, tipo ‘dark side of the force’, conectando as ditaduras da Rússia, China, Síria, Cuba, Nicarágua, Venezuela, Irã etc. contra as democracias liberais. Vivemos o dealbar de um novo tipo de guerra fria”.

Essa singela observação que nos coloca ante um confronto entre o bem e o mal, certamente dirigida aos que pensam com dois neurônios, e que explica a eleição do miliciano que governa o Brasil, não foi feita por Malafaia ou Edir Macedo, mas por um dos cientistas políticos locais, intelectual da social-democracia, a mesma que apoiou o golpe de 2016 que derrubou Dilma, patrocinado pelos EUA.

Para aqueles que costumam pensar e levar em consideração a História e o materialismo histórico como método, esse tipo de análise que nos coloca tão facilmente ante a escolha entre o lado bom e o lado mau não é fácil assim.

Vamos aos fatos e constatações aos quais a História nos obriga:

Primeiro, a história de todos os impérios é a história da rapina, do saque da economia e da opressão dos povos, em especial dos trabalhadores que produzem as riquezas de qualquer sociedade.

A democracia de Atenas, o Século de Ouro de Péricles, a república Romana e o esplendor de Roma sob Augusto só foram possíveis graças a um instrumento extraeconômico que permitiu a democracia ateniense e a política de pão e circo do Senado romano: o saque, a imposição de tributos aos povos vencidos e dominados e a redução dos trabalhadores conquistados à condição de escravos.

O imperialismo norte-americano segue a mesma lógica: a estabilidade de suas instituições, o “american way of life”, a pujança de sua economia dependem não de seu desenvolvimento científico e tecnológico, mas essencialmente do saque dos recursos estratégicos de outros países, da imposição do dólar como moeda internacional, que permitem a drenagem dos recursos dos trabalhadores do mundo todo para o tesouro do império mais poderoso de todos os tempos.

O complexo industrial-militar que governa os EUA, independentemente do partido político no poder, tem nas indústrias bélicas e petrolíferas a ponta de lança da geração de ativos reais da economia. E ambas não sobrevivem sem saques dos recursos estratégicos de países como o Brasil ou o Iraque, nem sem guerra e ameaça de guerras no planeta. A continuidade da Guerra Fria é essencial à economia estadunidense.

Dito isto, vamos aos interesses dos objetivos envolvidos na geopolítica internacional dos EUA, o império vitorioso no atual conflito:

Objetivos e interesses de curto prazo já alcançados:

· Impedir em definitivo a conclusão pela Rússia do gasoduto Nord Stream II e sua certificação pela Alemanha;
· Afastar a Alemanha de estreitar relações econômicas e políticas com a Rússia, a partir do comércio de combustíveis;
· Viabilizar a exploração lucrativa do petróleo de xisto (do qual tem as maiores reservas mundiais), com a elevação do preço do barril, que também beneficia as petroleiras que saqueiam o Iraque;
· Justificar a transferência de recursos do orçamento público norte-americano para a indústria bélica;
· Justificar a manutenção de 800 bases militares pelo mundo, inclusive na Europa;
· Justificar e fortalecer a existência da OTAN;
· Manter e submeter a União Europeia em sua área de influência;
· Promover e ampliar a russofobia;
· Vingar-se de Putin por interferir nas eleições norte-americanas e vendê-lo como novo Hitler.

Objetivos e interesses de médio prazo:

· Atingir a elite econômica russa, estrangular a economia pelas sanções e pelo esforço de guerra, desestabilizar o governo Putin e derrubá-lo via “insurreição popular”;
· Derrubar o atual governo sírio para construir oleodutos e gasodutos diretos do Iraque ao Mediterrâneo, de modo a tornar, a um só tempo, mais lucrativas as empresas petrolíferas e tornar a Europa mais dependente;
· Isolar a China econômica e politicamente.

Postos estes objetivos, constata-se que à Rússia foi levada a guerra pela ameaça dos EUA de estabelecer um cinturão de bases nucleares desde o Báltico até o Mar Negro, isolando a Rússia da Europa e pondo Moscou, São Petersburgo e outras cidades sob ameaça de mísseis a apenas cinco minutos de distância.

Depois de aliciar a Estônia, a Letônia e a Lituânia para a OTAN, o próximo passo foi promover e apoiar o golpe de 2014 contra o governo ucraniano pró-Rússia e apoiar a eleição do atual presidente de extrema-direita, inclusive com apoio de grupos nazistas. Feito isso, foi fácil alimentar a guerra contra as províncias ucranianas de maioria russa que não aceitaram o golpe, e manter o presidente como refém do apoio norte-americano, obrigado a fazer o “pedido” para ingressar na OTAN.

Putin, herdeiro da mentalidade do imperialismo grão-russo e do aparelho estatal stalinista, denunciados por Lênin, posto sob a ameaça direta de seu poder e da existência da própria Rússia, com atos de provocação que envolveram até a invasão de um submarino norte-americano nas águas territoriais das Ilhas Curilas, agiu como Stálin agiria: não hesitou em recorrer à guerra.

O imperialismo norte-americano, promotor de mais de 150 guerras pelo mundo, de golpes de Estado para impor ditaduras, de formar torturadores, milícias e de treinar e armar grupos terroristas, é a primeira e única nação do mundo a ter utilizado armas nucleares contra outro povo. Nada garante que viesse ou venha a fazer isso novamente.

Por incrível que pareça, foi a reação de Kruschev ao ameaçar instalar mísseis nucleares em Cuba, em 1962, para obrigar os EUA a retirarem suas bases de mísseis instaladas na Itália e na Turquia em 1961, que manteve o mundo livre de uma guerra nuclear. As atrocidades, os milhares de bombas lançadas sobre o Vietnã, todas as ditaduras impostas à América Latina, a invasão do Iraque – tudo isso não deixa dúvida de que ainda não imergimos em uma guerra nuclear graças ao equilíbrio entre as superpotências.

Se o atual equilíbrio for quebrado, com o aumento da força da OTAN, o que se pode esperar é uma era de novas ditaduras e governos autoritários a serviço do império norte-americano.

De todo modo, quem pagará os custos dessa guerra e do enriquecimento norte-americano, com o aumento do dólar e do barril de petróleo, serão os trabalhadores mundo afora. Morrerão os jovens ucranianos e russos, e sofrerão a violência, especialmente as mulheres e as crianças. Não há lado bom ou mau entre os promotores e interessados em guerras.

Elias Araújo é Graduado em História pela Universidade Federal do Pará. Consultor em Políticas Públicas.

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