Andressa Anholete/Agência Senado

A CPMI do INSS não fracassou. Pelo contrário, terminou tal como foi concebida e atingiu todo os objetivos estabelecidos pelas facções extrema direita e pelo Centrão.

Por Elias Araújo

Uma premissa inicial deve ser estabelecida: não existe relação entre políticos da extrema-direita e do Centrão (associação informal de políticos fisiológicos e mercenários de direita) e o crime organizado. Por definição, relação é algo que existe entre elementos distintos entre si. No caso, não há que se falar em relação pois as facções da extrema-direita e direta que dominam o Congresso Nacional são o próprio crime organizado em sua expressão política institucional.

Disto isto, vamos aos fatos. Assim que a polícia Federal identificou o esquema de descontos ilegais de aposentados e pensionista no Ministério da Previdência Social já no governo Lula, envolvendo agentes públicos e privados, cada uma das organizações criminosas envolvidas no esquema desde 2018, pôs-se em estado de alerta máximo.

Cada facção e cada membro dessas facções, sabia tanto dos riscos e ameaças individuais e coletivos, a partir dos papéis e divisão do trabalho em suas organizações, âmbito dessa fonte de recursos ilegal e criminosa, mas do potencial de que o avanço das investigações poderia levar a outros negócios, como desvio de finalidade de emendas, peculato, lavagem de dinheiro de corrupção e de atividades do narcotráfico, sonegação e comercio de combustíveis, a exemplo do Banco Master e outras fintecs semelhantes.

A pergunta que todos se fizeram foi “o que fazer?” A resposta era óbvia: assumir o controle das investigações e sobrepor-se, com a colaboração da mídia (oligárquica e das redes sociais) às investigações da Polícia Federal, para protegerem-se individual e coletivamente e responsabilizar o governo pelo escândalo.

Uma vez respondida a pergunta “o que fazer”, e estabelecidos os objetivos, a próxima pergunta a ser respondida foi “como fazer?”. A melhor resposta foi: sair na frente, já acusando o governo como o responsável e propor uma CPMI (Comissão Parlamentar Mista de Inquérito, composta por parlamentares do Senado e Câmara de Deputados).

Da proposta à execução, a extrema-direita e o Centrão sabiam que, ao conseguir o número mínimo para solicitar e instalar a CPMI, era provável que não tivessem a maioria necessária para o controle da mesma.

A próxima pergunta, portanto, a ser respondida foi: quem assumiria a presidência da Comissão e a relatoria? Mesmo sem maioria, sabiam que a definição e ocupação destes postos chave para a condução eram essenciais para garantir o controle do processo, a filtragem seletiva das informações e a narrativa desse processo para a mídia oligárquica e redes sociais.

Uma vez definida a estratégia, aproveitando o permanente estado e disposição de barganha entre os presidentes da Câmara e do Senado e o Governo Federal, em particular, no caso do Senado, a disputa em torno da indicação para a vaga de Barroso no Supremo Tribunal Federal, a resposta à pergunta de quem indicar para a presidência e relatoria da CPMI, foi dada como base numa condicionante, a saber, na ausência de garantia de qualquer princípio ético e moral entre criminosos, o estrito controle do compromisso com os objetivos comuns das facções só poderia ter como garantia a chantagem, o instrumento usado entre membros de máfias.

Assim, para a presidência da Comissão foram indicados um senador envolvido em destinação de emendas sabidamente suspeitas de ilicitude e, para relatoria, um deputado sob o qual havia rumores de ser pedófilo e estuprador.

A próxima pergunta foi quanto tempo seria a duração dos trabalhos da CPMI? A resposta o tempo bastante para infligir o máximo de desgaste ao governo, gerando o máximo de dúvidas, de desorientação e desinformação, seguindo com a cartilha de Steve Bannon.

As últimas perguntas feitas foram onde fazer a disputa de narrativas e quanto e quem pagaria pelos custos. A resposta ao onde, considerando que o local da CPMI no congresso seria apenas o palco e o estúdio de produção de imagens e informações, foi nas redes sociais e na mídia oligárquica; quanto e quem pagaria? Deixou-se isto a cargo do patrocínio das BETs, oferecendo-se as mesmas a garantia de não serem taxadas ou tributadas.

Os resultados alcançados foram:

– nenhum dos que viabilizaram normativa e operacionalmente a viabilidade do esquema (Paulo Guedes e Ônix Lorenzoni foram sequer ouvidos;

– nenhum dos envolvidos no esquema de lacagem e dinheiro do esquema, via banco Master, Clava Forte e outras fintecs foram ouvidos;

– o desgaste do governo, aferido por pesquisas de avaliação, foi alcançado com a divulgação de dados e informações feitas de forma seletiva, inclusive utilizando-se o alvo permanente e já parte do imaginário de parte do eleitorado, o filho do presidente Lula.

– a não aprovação de um relatório final, garantindo-se com isto que a Procuradoria Geral da República não terá como aprofundar investigações ou indiciar alguém com base nos trabalhos da CPMI.

A esta altura, você deve estar se perguntando: como isto foi possível? Como a oposição ao governo e as facções do crime organiza conseguiram alcançar todos os seus objetivos, se protegendo e aos seus comparsas? O que estava fazendo a bancada de apoio ao governo?

Antes de se responder a estas últimas perguntas, impõe-se fazer as seguintes constatações e considerações:

A primeira é, que sendo a política a continuidade a da guerra (luta de classes) por outros meios (a disputa de propostas, ideias e narrativas), a maioria de parlamentares de esquerda, por acomodação institucional e/ou ignorância mesmo ser recusa a adotar os princípios da Arte da Guerra. Mal conhecem a si, desconhecem e subestimam os inimigos ou adversários, e têm pouco conhecimento sobre o clima e o terreno. A combinação da ausência ou precária avaliação desses elementos é a condição certa para a derrota.

Na era digital onde as redes sociais compõem o terreno preferencial das disputas, e onde as narrativas são mais importantes que os fatos, que podem ser simplesmente negados, inventados, distorcidos e manipulados, de acordo com as conveniências, a maioria das pessoas e lideranças de esquerda é vítima de sua própria racionalidade, intelectualidade e forma de se comunicar.

A segunda contatação é que, por purismo ou pretensão, a maioria das esquerdas e de de sua representação recusa-se a pensar como o inimigo, subestimando-o ou não levando-o a sério. Ora, é elementar, por exemplo, que quem combata psicopatas, ouça outros ao seu alcance, para saber como pensam e, assim, prever e está um passo à frente.

No caso do terreno, o das mídias oligárquicas e das mídias digitais, além destas estarem sob o controle de oligopólios internos e externos, com pouco ou sem nenhum controle, a maioria do pessoal tanto do governo como da sociedade civil não tem habilidades e capacidades comunicacionais, com textos longos como este, que atingem público muito restrito.

No caso do clima, para além da colagem bem-sucedida de corrupção ao PT e aos governos de esquerda, feita por uma campanha contínua da mídia oligárquica hegemônica, a descrença crescente nas instituições, a fratura na percepção comum do que é real e fictício na era da inteligência artificial, que é fortalecida pelos universos das bolhas sociais, tudo isto dificulta e agrava as dificuldades de análises e respostas tempestivas por parte das esquerdas.

Ora, em política, tempo é tudo. Neste caso, além de agir tardiamente sobre a controle dos escândalos tanto do INSS como do Master, onde as facções da direita e extrema-direita são os atores principais, o governo e especialmente sua bancada o Congresso Nacional, em que pese a atuação aguerrida de alguns, moveu-se lenta e descoordenadamente, contra uma coligação de facções bem determinada, bem coordenada e sem qualquer escrúpulo.

A CPMI do INSS foi concebida, planejada, instalada, conduzida e concluída pela direita a extrema-direita, alcançado todos os objetivos e resultados pretendidos, inclusive o de se concluir sem qualquer relatório. Que se aprenda a lição.

Elias Araújo Graduado em História pela Universidade Federal do Pará. Consultor em Políticas Públicas.

 

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