Atrás o horizonte, vendido como possibilidade, estaria a redenção econômica da Amazônia, nosso tão sonhado Eldorado. Com o ciclo da mineração industrial, desde os anos 1970, não foi diferente. Triste sina? (Foto da bacia de contenção de rejeitos industriais, “lama vermelha”, da indústria de refino de bauxita, localizada no município de Barcarena, no estado do Pará. Crédito: Amazônia Real)
Por Aldenor Junior
Feche os olhos. Sonhar não custa nada, não é mesmo? Imagine que a bucólica ilha de Mosqueiro, esse gigantesco complexo insular encravado na capital paraense, tivesse sido escolhida para sediar, no início da década de 1970, um poderoso polo minero-metalúrgico, como decisão ditada pelos generais de plantão por meio da onipotente Companhia Vale do Rio Doce e de seus sócios japoneses?
23 de outubro de 1975. Aloysio Chaves, governador biônico do Pará, confrontou com firmeza a Eduardo Carvalho, então diretor da Vale: Mosqueiro estava fora de cogitação e ponto final. Diante da firme negativa, restou escolher outra localidade. Barcarena, ali próximo, foi o destino eleito para mais um grande projeto. Prêmio ou maldição? (Para saber mais, basta beber na melhor fonte: Lúcio Flávio Pinto, https://lucioflaviopinto.wordpress.com/2025/07/02/albras-alunorte-hydro/)
Lá se vai meio século. A mineração em escala industrial prometia ser a redenção para o Pará e, finalmente, superar a miséria social secular que nos aprisionava. Porém, qual o balanço sério que deve ser feito dessas décadas em que das entranhas da Amazônia foram extraídas riquezas extraordinárias? O tal Eldorado chegou ou foi apenas miragem?
Saltemos no tempo. Quando o dia 6 de maio de 1997 terminar, a Companhia Vale do Rio Doce, outrora a mais fabulosa joia da coroa nacional, estará em mãos do capital privado. O preço de sua entrega (não foi uma venda justa, longe disso, até hoje gera controvérsias), algo que em valores atualizados alcançou a irrisória soma de R$ 16 bilhões, quando seu atual valor de mercado gira em torno dos R$ 370 bilhões.
De repente, a Vale, suas jazidas e sua enorme infraestrutura, trocavam de mãos. Estava selada uma história privatista, que maculou para sempre a biografia de Fernando Henrique Cardoso, um homem cuja vida pregressa continha gestos de honradez e compromisso com um projeto autônomo de país.
Daí em diante, como se sabe, a Vale foi sendo partida e repartida. Seu espólio foi abocanhado por outros entes privados, sobretudo pelo capital transnacional. Foi assim que a Albras e a Alunorte, gigantes mundiais na produção de alumina e alumínio, passaram ao controle da Norsk Hydro, uma das principais operadoras desse lucrativo mercado planetário.
Maré vermelha
Sem a Albrás e a Alunorte não haveria a hidrelétrica de Tucuruí, no rio Tocantins, uma das maiores do mundo e a segunda 100% brasileira. Aliás, é bom deixar marcado que o fornecimento de energia firme e subsidiada está na raiz de todo o projeto de exploração mineral na Amazônia. Nunca essas grandes obras objetivaram atender às demandas da população originária. Foram e são até hoje peças fundamentais de uma arquitetura de exploração neocolonial.
Mas, voltemos à questão de quem pagou a conta. E por conta está se falando dos pesados impactos socioambientais em toda a cadeia de produção mineral, da extração ao embarque para os portos estrangeiros.
A população originária de Barcarena – ribeirinhos, quilombolas, pescadores – sabe que o sonho dourado virou pesadelo medonho. Mineração e seus complexos industriais chegaram aqui como enclaves, assim como já havia ocorrido em incontáveis lugares da África e da Ásia. Nunca foi parte de um projeto soberano. Continua, aliás, amparada por uma política fiscal injusta e antinacional (Lei Kandir), como elemento fundante da exploração dos recursos naturais – para o lucro privado – e na socialização em escala geométrica das mazelas sociais.
Por isso, coube ao marketing corporativo tenta fazer crer que a história é outra e que existe exagero nas críticas e nas demandas por reparação.
A Hydro, por exemplo, afirma, por meio de sua assessoria (veja nota ao final desta matéria), que a empresa não teria sofrido condenação na Holanda, retificando o artigo “Crime sem castigo”, publicada em 8/04 no pontodepauta.com. O que a nota não faz questão de dizer é que, sim, a Hydro já foi condenada por crimes ambientais, pela Justiça Federal brasileira, que em 2024, através da sentença do juiz da 9ª Vara, José Airton de Aguiar Portela, estabeleceu o valor de R$ 100 milhões para compensar o dano coletivo. Essa condenação se refere ao transbordamento de rejeitos ocorrido em 2009. Outros tantos ocorreram e ainda aguardam que a justiça seja feita.
Afinal, as marés vermelhas que contaminaram rios, igarapés e nascentes na região não foram pesadelos. São reais e suas consequências nefastas perduram até hoje.
A Amazônia e seus povos não podem ser carne barata no altar das grandes corporações. Construir um projeto alternativo é tão fundamental quanto, sabemos, ser dura a batalha que permanece para ser enfrentada, pequenos Davis contra mastodônticos Golias (envelopados pela mais delicada membrana do mais bem pago Greenwashing).
*Aldenor Junior é jornalista.
A seguir, nota encaminhada pela assessoria de imprensa da Norsk Hydro:
Na última quarta-feira (08/04), o Ponto de Pauta publicou o artigo “Meio Ambiente – Crime sem castigo”, assinado pelo jornalista Aldenor Junior. No texto, o autor na diz que a Hydro foi condenada pela Justiça holandesa, o que não é verdade. Compartilho aqui o posicionamento da empresa:
Tribunal holandês rejeita todas as acusações contra a Hydro
Em seu julgamento final, o tribunal de Roterdã rejeitou todas as reclamações contra a Norsk Hydro ASA e suas entidades holandesas no caso movido pela associação brasileira Cainquiama e nove indivíduos em 2021.
Durante o processo, a Hydro solicitou ao tribunal que julgasse improcedente o caso com base em evidências, apoiadas por relatórios de técnicos baseados em extensos dados públicos, demostrando que as alegações feitas pelos demandantes são infundadas.
A Cainquiama, associação com sede em Barcarena, Brasil, e nove pessoas físicas brasileiras, entraram em 2021 com uma ação na Holanda contra as entidades holandesas da Hydro e a Norsk Hydro ASA. Os autores buscavam indenização por supostos danos à saúde e impactos financeiros decorrentes das atividades industriais da Alunorte e Albras no município de Barcarena.
Na decisão de 24 de setembro de 2025, o tribunal holandês rejeitou todas as acusações contra a Norsk Hydro ASA e suas entidades holandesas.
Este texto está disponível no site oficial da Hydro.
Atenciosamente








