Foto: Casa Branca

Por Elias Araújo

Organizações terroristas são aquelas que fazem da violência e do medo instrumentos para alcançar objetivos políticos: tomada do poder, genocídio, adoção de leis favoráveis, entre outros. Toda organização terrorista é criminosa, mas nem toda organização criminosa é terrorista. Confundi-las é, via de regra, um ato político.

A definição de organizações ou pessoas como terroristas, quando feita por estados ditatoriais, autoritários, colonialistas ou imperialistas, tem quase sempre o objetivo político de segregar, desqualificar e criminalizar aqueles que lutam contra potências colonialistas e imperialistas, bem como contra regimes racistas e ditatoriais.

Os exemplos de classificação de pessoas e organizações como terroristas são muitos na história contemporânea. Para ficar apenas nos casos mais famosos: o parlamento britânico declarou, em um ato de 1933, Mahatma Gandhi e seu Movimento de Desobediência Civil como terroristas.

De igual modo, tanto o parlamento britânico quanto os governos do Reino Unido e o governo do apartheid da África do Sul classificaram o Congresso Nacional Africano (CNA) e Nelson Mandela como terroristas — classificação que permaneceu mesmo após a libertação de Mandela, depois de 27 anos de prisão.

A prova cabal de que a classificação de terroristas por potências colonialistas e imperialistas segue critérios de mero arbítrio político é dada por dois exemplos recentes.

O primeiro é o de Al-Sharaa, atual presidente da Síria, considerado um “Terrorista Global Especialmente Designado” (SDGT) por sua liderança no grupo Hayat Tahrir al-Sham (HTS), uma antiga afiliação da Al-Qaeda. Os EUA chegaram a oferecer US$ 10 milhões por sua captura. A retirada de seu nome da lista negra de terroristas foi anunciada pelo Departamento do Tesouro dos EUA em 7 de novembro de 2025, apenas três dias antes de um encontro na Casa Branca. A decisão também se estendeu ao seu ministro do Interior e foi seguida pela ONU, que removeu sanções simbólicas.

O segundo exemplo é o sequestro e a prisão do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, sob a acusação de liderar uma organização de narcotráfico — o “Cartel de los Soles” — classificada como terrorista pelos EUA. Posteriormente, o Departamento de Justiça dos EUA retirou essa acusação porque o tal cartel nunca existiu, mas subsistiu outra acusação. De fato, o único crime de Maduro é liderar um país que tem petróleo.

Em todos os países que possuem petróleo ou outro mineral considerado estratégico, ou que tenham posição geopolítica importante, seus líderes, quando assumem uma atitude independente, são invariavelmente depostos e/ou assassinados sob alguma acusação arranjada pelos Estados colonialistas. Assim foi com Patrice Lumumba, no Congo; com Kadafi, na Líbia; com Saddam Hussein, no Iraque; e com Bashar al-Assad, na Síria.

O Brasil, além de petróleo, possui a “maldição” de minerais estratégicos, como as terras raras. Assim, a classificação de organizações criminosas como o PCC e o CV como terroristas atende aos interesses geopolíticos dos EUA, que pretendem, com essa classificação, usá-la como pressão política sobre o governo brasileiro — incluindo ameaça de intervenção militar em favor de seus interesses e em ataque aos BRICS.

O fato de tal classificação ocorrer no contexto das eleições presidenciais de outubro no Brasil já se configura em clara intervenção em assuntos internos do país, em afronta à Constituição Federal de 1988.

O uso dessa classificação como instrumento político não é uma exclusividade do atual governo estadunidense, nem se relaciona apenas à capacidade de lobby dos sabujos e traidores da família de milicianos e seus comparsas. Os exemplos e fatos acima mencionados provam tratar-se de política de Estado dos EUA e de outros países colonialistas. Em todo caso, não resta dúvida de que o Brasil, depois de Cuba, será a “bola da vez” da intervenção do Império estadunidense na América Latina — considerada e declarada por eles como seu quintal.

Elias Araújo – Graduado em História pela Universidade Federal do Pará. Consultor em Políticas Públicas.

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