Foto ilustrativa: IA

Por Levi Menezes

No balanço das horas, tudo pode mudar. O refrão chiclete da canção do Kid Abelha nunca fez tanto sentido em uma eleição como quando o assunto é a sucessão estadual no Pará em 2026. Nos bastidores políticos, o clima já é de contagem de votos, articulações acaloradas e projeções de cenários de segundo turno. Mas, nas ruas, a realidade é completamente outra: a eleição ainda não começou e o eleitor sequer parou para pensar no assunto.

Se olharmos os dados da recente pesquisa Genial/Quaest, publicado no último dia 27 de junho, sob a ótica estrutural, focando no que o eleitor vive e sente, e não apenas nas disputas de torcida, o número mais revelador não é quem lidera as simulações. O dado mais forte da pesquisa é, na verdade, o vazio. Na intenção de voto espontânea, aquela em que o eleitor diz o que vem à cabeça sem olhar uma lista, impressionantes 80% dos paraenses não fazem ideia de em quem votar.

E não para por aí. Mesmo quando estimulados com os nomes, 68% dos entrevistados admitem com franqueza que sua escolha atual ainda pode mudar. Ou seja, a quase totalidade do voto medido hoje é um voto de gelo, que fatalmente vai derreter e mudar de formato várias vezes até as urnas abrirem.

A explicação para tamanha indefinição é simples: a maioria da população não conhece os principais atores que estão no palco. Tanto a candidata governista, Hana Ghassan, quanto o Dr. Daniel Santos, que protagonizam a disputa nas simulações de primeiro turno, são ilustres desconhecidos para mais da metade do eleitorado (53% e 58% de desconhecimento, respectivamente). Como cravar favoritismo quando o eleitor mal sabe quem está pedindo o seu voto?

Para entender quem realmente tem chances, precisamos olhar para a avaliação do atual governo, fator que mais pesa na decisão de continuidade ou mudança. Hoje, o governo de Helder Barbalho marca 45% de avaliação positiva (ótimo/bom). Esse número é forte, mas coloca a situação governista exatamente na chamada “zona de limbo” (entre 34% e 45%). É um patamar em que o governo não está ameaçado de derrota iminente, mas também não atingiu a marca mágica de 46% ou mais, que confere um favoritismo irrefreável à reeleição ou eleição de um sucessor direto. A situação de Hana Ghassan, avaliada individualmente com 36% de positivo, reforça esse diagnóstico: o jogo está aberto.

Mesmo com a imensa maioria do eleitorado ainda no escuro, o pequeno grupo que já escolheu um lado revela o “esqueleto” invisível desta eleição. Os recortes da pesquisa mostram que o Pará começa a desenhar uma disputa ancorada nas velhas divisões demográficas do país. A candidata governista, Hana Ghassan, encontra sua maior força na base da pirâmide, liderando entre os eleitores mais pobres (que ganham até dois salários mínimos) e na principal faixa da força de trabalho (35 a 59 anos). Na outra ponta, o Dr. Daniel Santos ganha tração justamente no caminho inverso: seu melhor terreno está entre os eleitores de maior renda (mais de cinco salários mínimos) e no eleitorado acima dos 60 anos, assumindo o figurino clássico de uma candidatura de oposição.

Mais revelador ainda é observar como a polarização nacional já começa a organizar a cabeça do eleitor paraense, mesmo tratando-se de uma disputa estadual com nomes que a maioria ainda não conhece. Quando a pesquisa é dividida por posição política, a fotografia fica nítida: entre quem se declara “lulista”, Hana atinge seu pico de intenções de voto. Já entre os “bolsonaristas” e eleitores da “direita não bolsonarista”, o Dr. Daniel vira o porto seguro por exclusão, isolando-se na liderança desse segmento. Isso significa que, antes mesmo de a campanha debater os problemas reais do estado, o eleitorado que já começou a se movimentar está, no fundo, apenas transferindo suas antigas trincheiras de Brasília para Belém.

Para a candidata Araceli Lemos, os números revelam uma oportunidade oculta sob o anonimato. Seu principal obstáculo nesta largada não é reverter uma rejeição consolidada, mas sim se apresentar ao estado, já que a imensa maioria dos eleitores sequer sabe quem ela é. Contudo, é justamente essa folha em branco que permite enxergar o copo meio cheio: em uma disputa marcada por um mar de indefinição, onde a esmagadora maioria do eleitorado ainda não escolheu um candidato e admite abertamente que o voto pode mudar, há um vasto território a ser explorado. Se a campanha conseguir romper a barreira do desconhecimento e dialogar com esse eleitor que ainda procura por alternativas, existe uma avenida real para crescimento antes que o cenário se cristalize.

O que a pesquisa de julho de 2026 nos diz de verdade é que o eleitor paraense colocou a eleição na sala de espera. Ignorar os 80% de indecisos e focar em simulações hipotéticas de segundo turno agora é um erro de cálculo. A disputa verdadeira ainda nem começou. É muito cedo para qualquer lado estourar champanhe ou cantar vitória, afinal, no balanço das horas, tudo pode mudar.

Levi Menezes é jornalista

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