Por Elias Araujo
O membro do clã de milicianos que pretende aproveitar-se das eleições presidenciais para retomar o Milicianato II (o governo de milicianos, militares e fundamentalistas do talibã cristão evangélico e católico) está sendo vítima de sua própria armadilha, a saber, a de misturar poder político com religião. No que é auxiliado pelo coordenador eleitoral de sua campanha, o ministro terrivelmente evangélico que inclusive aceitou assumir a carapuça de sua laia ao censurar todos os posts das redes sociais que se referem ao “clã miliciano” associado ao racismo contra a padroeira de cor negra Nossa Senhora Aparecida, feito por um jornalista do UOL e que desencadeou uma batalha nas redes sociais, às vésperas das eleições.
Um mínimo de conhecimento da História, ao menos do “mundo ocidental”, demonstra que suas páginas mais tenebrosas foram escritas por aqueles que fundiram em um só o poder político e o religioso; por aqueles que transformaram religião em ideologia de promoção do supremacismo étnico, de moral e costumes religiosos e de sistemas econômicos.
Não por acaso, os maiores crimes contra a humanidade, os genocídios, a desumanização dos “outros” foram e são praticados predominantemente pelas religiões abrahâmicas — cristianismo, islamismo e judaísmo — em suas vertentes fanatizadas, quando os seus líderes e seguidores quiseram e querem impor-se como “os eleitos”, os “portadores da verdade”, “os fiéis”, “os santos”, os “civilizados” contra os “apartados”, “os hereges”, os “infiéis”, os “impuros”, os bárbaros.
O evangelho libertador que se espalhava especialmente entre os mais pobres e oprimidos, reunindo-os como irmãos e iguais na fé e no amor em Cristo, logo foi percebido em seu poder ideológico para a submissão cega e a justificativa ideológica do poder imperial e colonizador do Império Romano Oriental. E, assim, juntando opressores e oprimidos em uma só irmandade, com a Igreja primitiva comunal sendo substituída por uma estrutura hierárquica tomada do Império, impôs-se como religião oficial não mais pelo amor ao próximo, pela compaixão cristã, mas pela força, “convertendo” tribos e povos inteiros que tinham como opção ou se curvarem e aceitarem a nova fé e seus donos, ou serem exterminados e enviados ao próprio inferno ainda em vida, em meio a humilhações, tortura e morte.
O Sacro Império Romano-Germânico e os Cruzados não fizeram por menos na perseguição e extermínio de tribos e nações que tentaram resistir em seus modos de vida, culturas, saberes e crenças. Os líderes e seguidores tanto da Reforma quanto da Contrarreforma aprimoraram-se ainda mais nas artes das necropolíticas e das tanatocracias, de um lado, não só nas fogueiras que queimaram bruxas, huguenotes e cientistas; e, de outro lado, ambas as vertentes de seguidores da Reforma e da Contrarreforma se atiraram contra os povos das Áfricas e das Américas, exterminando dezenas de milhões de pessoas, escravizando, estuprando, torturando e exterminando civilizações inteiras de um lado e outro do Atlântico, de todos os que recusaram a colonização de suas terras, corpos e mentes.
Os fanatizados do Islã também usaram e ainda usam o pretexto da “verdade” de sua fé e religião como instrumento e justificativa ideológica para o empreendimento colonizador e dominador. A Jihad Maior (espiritual e individual) foi e tem sido substituída pela Jihad contra os “infiéis”, que permitiu a colonização do norte da África e das franjas subsaarianas e de quase toda a Ásia Ocidental.
A vertente fanatizada do judaísmo, igualmente colonizadora de terras, corpos e mentes, o sionismo, hoje é responsável pela mais vergonhosa página da história contemporânea, o genocídio do povo palestino, cujo opróbrio recairá sobre nós por séculos por termos assistido diariamente, ao vivo e em cores, à iniciativa, à força e à determinação para deter essa abominação que, ao menos para nós, está normalizada, inclusive como povos que compõem a “cristandade ocidental”.
O que há de comum entre essas vertentes fanatizadas das religiões abrahâmicas é que as três afirmam e justificam suas ações por serem portadoras e investidas da missão divina de impor a todos os povos do mundo uma aberração contra a natureza humana: a verdade única, definitiva e divina.
E digo aberração contra a natureza humana porque esta tem como definição ontológica a imperfeição; imperfeição esta não de sentido moral ou ético, mas de um ser biológico e social em permanente mudança pela relação com seu meio socioambiental. E essa definição de nossa humanidade imperfeita funda-se ainda na qualidade que nos distingue das demais espécies, que é a imaginação ilimitada; o que nos faz também imprevisíveis protagonistas da nossa própria história, cuja criatividade se manifesta na diversidade de modos de vida, de culturas, artes, crenças e ciências, todas igualmente verdadeiras e igualmente provisórias e temporais.
A “verdade” de cada povo corresponde não apenas aos universos simbólicos construídos coletivamente e que permitem a sua identidade e a explicação cosmogônica, mas também aos aparatos cognitivos (conceituais e metodológicos) e tecnológicos de apreensão da realidade, de produção de conhecimentos e inovação tecnológica disponíveis em cada tempo. Assim, por exemplo, a física euclidiana não é falsa ou verdadeira; ela ainda é útil e aplicável em nosso cotidiano, e suas limitações só aparecem quando o desenvolvimento conceitual (teorias da gravidade e teorias da física quântica) e tecnológico (telescópios, microscópios e túneis de aceleração de partículas) nos permitiu reconhecer desafios de observação em escalas cósmicas e quânticas.
E toda essa digressão sobre vertentes fundamentalistas e suas “verdades” únicas, definitivas, eternas e divinas, essa demonstração de que todas as tentativas de se impor crenças e construir mundos perfeitos para “eleitos”, “prometidos”, “puros”, “fiéis” em seus respectivos paraísos terrenos quase sempre inspirou e terminou em regimes totalitários, supremacistas, segregacionistas e excludentes.
Se os judeus e cristãos criaram para si a definição de “povo eleito”, os nazistas se justificaram como a “raça pura ariana”; e os estalinistas pretenderam dominar as “leis férreas da história”, que teria o comunismo como “destino” da classe “eleita” operária, com os assassinatos em massa nos “processos de Moscou” e no extermínio praticado pelo Khmer Vermelho. Neste caso, substituiu-se a classe operária pelo partido único e a consciência de classe pela mitificação e mistificação da verdade única e definitiva de determinada teoria revolucionária, com seus “verdadeiros” intérpretes e profetas.
A propósito, paraíso (do grego, parádeisos) vem do zoroastrismo persa pairi-daēza, que significa literalmente “jardim murado”. Tire as suas próprias conclusões sobre supremacismo e exclusivismo.
Cada religião e suas vertentes têm suas vertentes, como resultado daquela qualidade humana que nos distingue, a imaginação, tem suas verdades, que respondem a diversas interpretações de textos sagrados, de valorização de determinados e diversos princípios, dogmas, representações do mundo, relações de gênero e de poder.
Desde que essas verdades não resultem em intolerância. violência, na disseminação de preconceitos, de exclusão social e de práticas supremacistas, cada um tem o direito de acreditar e cultuar o que quiser. O problema surge quando uma verdade religiosa pretende ser alçada à condição de verdade de Estado, porque isto contraria o princípio constitucional de uma “sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos”. Todo Estado com uma só verdade, todo Estado teocrático é um estado ditatorial.
A separação entre Igreja e Estado, feita pela mãe de todas as revoluções da Era Moderna ocidental, a Reforma Protestante, é uma conquista civilizatória. E esta separação é condição e qualidade essencial do Estado democrático de direito. E esse é o fundamento da liberdade de fé e culto inscrito em nossa constituição federal.
Voltando ao início, o miliciano foi vítima de sua própria armadilha quando, ao buscar fazer proselitismo entre os seus seguidores, declarou que um dos seus primeiros atos como presidente seria decretar que “o Brasil é do Senhor Jesus Cristo”. O que significa isto num país cujo preâmbulo da Constituição Federal declara que ela é promulgada “sob a proteção de Deus”? A declaração certamente não se dirige a todos os cristãos que o seguem, mas tem endereço certo: os evangélicos seguidores de seu pai que foram levados por seus líderes a substituírem as saudações de paz por “arminhas” dentro dos templos.
Tal declaração, para além do objetivo de mobilização, coesão e engajamento político-ideológico de segmentos evangélicos, ganhou entre expressivos segmentos do clero católico o significado de uma ameaça de um governo que, na melhor das hipóteses, tenderia a privilegiar os líderes evangélicos nos espaços de poder e nas políticas públicas e, na pior das hipóteses, à imposição de um regime teocrático ditatorial, claramente vinculado aos interesses econômicos e ideológicos de setores fundamentalistas evangélicos dos Estados Unidos, cuja intervenção nos anos 60 e 70 se fez inclusive contrapondo-se à Teologia da Libertação, com o apoio de pregadores evangélicos anticomunistas.
Os bispos da CNBB estão muito longe de serem comunistas, mas são bastante ciosos e preocupados com a contínua redução não apenas de seus rebanhos, com o avanço das denominações evangélicas especialmente entre os mais pobres e desesperançados, mas também com a perda de influência e poder político que isto significa.
Nesse contexto, a menção intencional ou não, por uma jornalista em programa de relativa audiência, a um projeto de lei apresentado e retirado que pretendia retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil, de autoria de um ex-deputado bolsonarista e evangélico, só foi a faísca que faltava para acender o rastilho de pólvora já espalhado nas redes sociais e nos templos e igrejas.
Como os principais instrumentos do fazer política da extrema-direita e do clã miliciano são o medo, o ódio e a mentira, a sua tentativa de coesionar, mobilizar e engajar um segmento que julga ser portador e ter a missão de impor (teoria do domínio) o “verdadeiro evangelho” no país, contra o “falso evangelho”, só poderia resultar em um novo front da “guerra cultural” que a extrema-direita espalha como método de caos pelo mundo. O sujeito que semeia medo, ódio e mentiras diariamente, mente compulsivamente sobre qualquer coisa e pretende ser o “enviado” porta-voz da “vontade divina” e colher frutos em searas onde há toda a espécie de verdades.
Para concluir, sobre a tal teoria do domínio das sete colinas, de pastores como Silas Malafaia e outros do The Family no Brasil, vale lembrar que nada tem a ver com os evangelhos, onde o próprio Cristo declarou que “o meu reino não é deste mundo”, não precisando o seu Evangelho do poder do Estado para ser pregado, “não pela força e nem pela violência”. Em uma das três tentações, quando levado a um monte muito alto do qual o tentador mostrou-lhe “todos os reinos do mundo”, dizendo “tudo isto te darei se, prostrado, me adorares”, Jesus respondeu: “Vai-te, Satanás, porque está escrito: Ao Senhor teu Deus adorarás, e só a ele servirás”. Ao que tudo indica, segundo o próprio Evangelho que dizem seguir, os líderes cristãos e seus seguidores que querem declarar o Brasil como o reino de Jesus na Terra (do “evangelho verdadeiro”) não resistiram à tentação do capeta.
Felizmente, esta é uma eleição de seres humanos imperfeitos, importante não apenas para elegermos nossos representantes no Legislativo e no Executivo, mas também como um plebiscito tácito sobre se escolheremos continuar como um Estado democrático, livre e soberano, para lidar com os enormes desafios de combater a desigualdade social, a violência, a corrupção e o crime organizado, ampliando e efetivando direitos e políticas públicas para os que mais precisam; ou se nos tornaremos o Estado vassalo, subserviente e colônia de um Império em crise, com um governo autoritário, de viés teocrático, disposto a entregar todas as nossas riquezas para enriquecer os bilionários nacionais e estrangeiros, favorecendo as oligarquias, cortando os direitos e os recursos das políticas públicas para os mais pobres e vulneráveis. Nós temos verdades a construir e escolher, e elas são bem terrenas, não importam as nossas crenças e fé.
Elias Araújo é Graduado em História pela Universidade Federal do Pará. Consultor em Políticas Públicas.
Os artigos publicados na coluna “Opinião” não refletem necessariamente a posição do “Ponto de Pauta”. Os textos buscam estimular o debate sobre temas importantes para o país.








