Em setembro deste ano, pelo menos 5 mulheres foram assassinadas por dia pela simples razão de serem mulheres. Outras 12 sofreram tentativa de feminicídio, expondo uma tragédia social que precisa ser detida – Foto:divulgação
Por Aldenor Junior
O país foi abalado por uma avalanche de casos de violência extrema contra a mulher. No espaço de poucos dias, um duplo feminicídio ocorrido no CEFET-RJ chocou a comunidade. Um funcionário da instituição fuzilou suas duas colegas. Ele não se conformava em ser dirigido por duas mulheres e há meses as ameaçava. Em São Paulo, um homem entra no local de trabalho de sua ex-esposa e a assassina na frente de todos. O agressor utilizou duas armas de fogo. Em Recife, um homem assassina a facadas a mulher grávida e aos quatro filhos ao atear fogo na própria casa. E o show de horrores parece não ter fim.
Várias outras tentativas de feminicídio ganham o noticiário. Um homem atropela e arrasta uma mulher (com quem mantivera um breve relacionamento) por mais de um quilômetro; a vítima teve as pernas amputadas e está em estado grave.
O que todos esses crimes têm em comum? Qual a teia invisível que interliga essas tragédias que se repetem à exaustão?
Sem dúvida, são manifestação do machismo estrutural que formata a sociedade brasileira e, por isso, decorrem de dinâmicas que estão presentes há séculos. Afinal, o Brasil nasceu do estupro e da degradação das populações originárias. Aquelas mulheres que chamaram atenção do primeiro cronista, que andavam “todas nuas” e sem nada que cobrisse “suas vergonhas”, foram as primeiras vítimas. O que ocorreu depois desse choque inaugural, todos sabem: uma nação forjada pela faca afiada do racismo e do colonialismo.
Porém, é óbvio que os últimos anos de maré montante da extrema direita e de sua manifestação mais patológica, o bolsonarismo, criaram o ambiente para o agravamento e disseminação do discurso de ódio contra as mulheres, uma misoginia que, no limite, conduz à violência brutal e à eliminação física.
Um mar de atrocidades
Os dados oficiais revelam que, em 2024, 1859 mulheres foram vítimas de feminicídio no Brasil, uma média de 5 a cada dia. No mesmo perídio, houve 2286 tentativas de feminicídio, numa torrente contínua de barbaridades. Este levantamento foi compilado pela Universidade Estadual de Londrina (UEL), que mantém um rigoroso trabalho de pesquisa e monitoramento dos casos de feminicídio, através do Laboratório de Estudos de Feminicídios (Lesfem), com apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).
A mancha de horror contra as mulheres se espalha em todo o território nacional, sem exceção. Entretanto, são estados da Amazônia Legal que ostentam a vergonhosa posição de liderança neste tipo de crime hediondo. No levantamento do Lesfem relativo ao primeiro semestre de 2025, contra uma média nacional de 7,09 feminicídios consumados ou tentados por cada 100 mil habitantes, os cinco estados campeões nessa modalidade de crime atroz foram, em ordem decrescente: Amapá, 18,9; Mato Grosso, 17,0; Acre, 15,9; Roraima, 13,3 e Rondônia, 12,6.
O Pará, que aparece com a média de 6,0, no período citado, registrou 130 casos de feminicídios consumados ou tentados. Indicadores que deveriam causar intensa indignação na sociedade e mover esforços para enfrentar essa onda de violência de gênero.
A pergunta que fica deveria ser capaz de despertar a todo aquele que julgue possuir o mínimo de humanidade: até quando essas meninas e mulheres serão sacrificadas? Esse sangue, repleto do mais profundo sofrimento, exige, mais do que nunca, justiça.
Aldenor Junior é jornalista








