Para coordenadores, as cerca de 60 ações do “abril vermelho” marcam o retorno da reforma agrária popular
16° Acampamento Pedagógico da Juventude Sem Terra Oziel Alves acontecido entre 13 e 17 de abril, em Eldorado dos Carajás/ PA, foi um dos eventos do “abril vermelho” (Foto: Hannah Letícia – MST/MA)
Com o tema “Por terra, teto e pão”, o chamado abril vermelho – relembrando o Massacre de Eldorado do Carajás, que em 2022 completou 26 anos – marcou a retomada das ações massivas do MST depois de dois anos desde que a pandemia de covid-19 começou.
Marchas, retomadas de latifúndios, plantio de árvores, distribuição de toneladas de alimentos, shows, o 16° Acampamento Pedagógico da Juventude Sem Terra Oziel Alves e ocupações de sedes do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) foram as principais ações recentes do MST.
Apesar de chamada de abril vermelho, a jornada começou antes e deve seguir depois do fim mês. Já no fim de março, uma mobilização nacional articulada entre movimentos sociais do campo e da cidade pressionou o STF a prorrogar a suspensão de despejos na pandemia até 30 de junho.

Percorrendo 110km, cerca de 3.500 sem terra marcharam de Feira de Santana até Salvador e ocuparam o Incra – Rariele Rodrigues / MST-BA
“Estamos reaquecendo os motores”, avalia Márcio Santos, de São Paulo, ao garantir que o movimento “tem uma série de atividades e ocupações programadas para o início de maio”.
“Nós temos ainda 80 mil famílias acampadas de norte a sul. É o reflexo dessa política concentradora de terra e riqueza no campo brasileiro”, frisa.
O retorno da reforma agrária popular
Depois de dois anos sem encontros presenciais, cerca de 150 jovens sem terra dos estados do Pará, Maranhão e Tocantins se reuniram novamente no Acampamento da Juventude em Eldorado do Carajás entre 13 e 17 de abril.
No Rio de Janeiro, em Sergipe, na Bahia, no Paraná e no Espírito Santo houve protestos nas sedes do Incra, em denúncia à paralisação da reforma agrária. No caso da Bahia, o Incra foi ocupado como ação final de uma marcha que percorreu 110 km de Feira de Santana até a capital do estado, com 3.500 pessoas.
Para Polly Soares, ativista do Pará e integrante, como Márcio, da coordenação nacional da frente de massas do MST, a jornada marca “o retorno da reforma agrária popular”.
“Vivemos um processo no Brasil desde 2016, e aprofundado durante o governo Bolsonaro, de criminalização dos movimentos sociais, paralisação da reforma agrária e desestruturação dos seus órgãos reguladores”, avalia. “Um processo que busca tornar a reforma agrária uma pauta superada”, sintetiza Polly.
“Quando trazemos isso de volta numa jornada de lutas depois de dois anos, nós estamos dizendo: esta pauta não está superada”, afirma. “Ao contrário: a reforma agrária popular é necessária. É com a produção de alimentos saudáveis, com distribuição de terra e com qualidade de vida para os trabalhadores do campo e da cidade que nós vamos superar a situação de crise econômica que nosso país foi colocado pelo governo Bolsonaro”, expõe Soares.
Ocupações de latifúndios
A jornada de lutas do MST foi marcada também por ocupações de terra nos estados do Rio Grande do Norte, Ceará, Paraíba, Santa Catarina, Distrito Federal e Bahia.
Em Guaratinga (BA), mais de 100 famílias ocupam, desde o início de abril, a fazenda improdutiva Mata Verde. Em Ipueiras (CE), 80 famílias ocuparam a fazenda Lagoa dos Veados, reivindicando que o governo cearense desaproprie a área por meio da lei estadual 17.533/21.
No Rio Grande do Norte trabalhadores rurais fizeram duas ocupações de latifúndios. Uma no município de Barra de Maxaranguape e outra no de Rio do Fogo, litoral norte do estado. Esta última foi batizada de ocupação Paraíso dos Carajás. Na Paraíba, cerca de 50 famílias ocuparam a usina Maravilha, na cidade de Caapora.
Famílias do acampamento Quintino Lira em Santa Luzia (PA) fizeram uma ocupação simbólica, temporária, na Fazenda Cambará – onde ficam armazenados os maquinários usados para destruir a área de reserva e as roças das famílias sem terra.
A ocupação de terras, lembra Márcio, “é um método usado pelo MST desde que surgiu, no começo dos anos 1980. E é a característica fundamental do movimento: organizar trabalhadores e fazer ocupações como forma de denúncia dessa estrutura agrária extremamente arcaica que o nosso país possui e, ao mesmo tempo, reivindicar a terra para os camponeses”.
“Muito se falou que o Bolsonaro ia acabar com o MST, que isso e aquilo, e as ocupações demonstram exatamente o contrário”, atesta: “Nós estamos vivos, mais do que nunca”.
Edição: Felipe Mendes








